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Ingrid Schraffl NORTE E SUL NA MÚSICA DE CABO VERDE Ingrid Schraffl - Licencianda em musicologia na Universidade de Viena (Áustria), diplomada em piano, inscrita também na Universidade da música e do espectáculo de Viena, tem desenvolvido pesquisas etnomusicológicas sobre a música popular de Portugal, Brasil e Cabo Verde. É raro observar uma população que se abandone à música com tanta espontânea naturalidade e paixão como a das Ilhas de Cabo Verde. Uma grande parte dos músicos, cantores e compositores são pescadores que, de regresso de uma cansativa jornada no mar, se dirigem para os locais de música para apresentar as suas últimas criações ou os clássicos do seu repertório, lendo muitas vezes os textos escritos com letra desajeitada em minúsculos papelinhos amarrotados. Na música e no canto atiram para trás das costas o cansaço do trabalho, a infelicidade duma vida feita de dificuldades, a tristeza pelos companheiros e familiares perdidos no mar. A dor, todavia, nunca é gritada. A dramatização que está na base destes cantos é sempre contida e um tanto elegíaca. Sodade (a variante crioula da palavra portuguesa saudade, derivante etimologicamente do latim solitudo contaminado com salus) é a palavra mais recorrente. O termo não tem equivalente em italiano e exprime um misto de tristeza e nostalgia do qual não está ausente um subtil prazer, o prazer da memória e do desejo. Mas quando é o prazer a tomar a dianteira, toda a tristeza é posta de lado e o público, incitado pelos tocadores, lança-se em irresistíveis ritmos que desvendam reminiscências de antigos ritos corais da fertilidade agreste. Em Cabo Verde a música está presente em toda a parte e quando falta, há sempre alguma menina sentada sobre uma paredinha a cantar acompanhando-se com complicados ritmos batidos com as mãos sobre as coxas. Os vários géneros musicais desenvolvidos têm todos em comum - mesmo a lírica morna, que poderia parecer mais individualista - um carácter comunitário. Evidentemente toda a música cabo-verdiana é expressão de experiências colectivas ou para estas remete. De resto a execução é sempre um evento colectivo: é-o a música dançada por ocasião de festas civis ou religiosas e o são a elegíaca morna ou a alegre coladera, apresentadas nos restaurantes/cafés ou nos locais de música perante os ouvintes apinhados em cima de longos bancos. Nas aldeias de Santiago não estão ainda extintas as antigas danças acompanhadas pelos cantos corais e pelas percussões, em que participa toda a comunidade local. Mas até nas modernas discotecas, a música da produção discográfica industrial - actualmente está em voga o zouk das Antilhas - e os sons produzidos por sintetizadores e guitarras eléctricas conseguem agregar os frequentadores num festivo quadro coréutico. Europa e África encontram-se de forma singular na música de Cabo Verde, ou melhor, o processo que está na base deste encontro pressupõe uma curiosa triangulação que inclui as margens atlânticas do continente americano. Todavia, o fenómeno musical que se produziu no meio do Oceano Atlântico não é o resultado da intersecção de influxos dirigidos para um centro, partindo respectivamente do continente africano, da Europa e da América, mas antes o fruto compósito de um variegado processo de contribuições diferenciadas no espaço e no tempo. Ele reproduz em parte as deslocações das populações que compõem a actual demografia cabo-verdiana e os seus encontros e intercâmbios culturais na diacronia da sua complexa história. E o relativo isolamento bem como as diferentes vicissitudes históricas e demográficas de cada uma das ilhas que formam o Arquipélago complicam ulteriormente o quadro. Os instrumentos Os instrumentos mais propriamente africanos são na maioria membrafones, a saber, tambores de todo o tipo e medida (tambor, bombo, caixa, 'correpi'). Entre os idiofones, o ferro (ou ferrinho) é, como o próprio nome indica, um pedaço de metal ou de chapa sobre o qual vai sendo esfregada a lâmina duma faca. É utilizado de prevalência para o género funaná. Tal como outros instrumentos tradicionais de origem africana, está destinado a desaparecer, substituído normalmente pela bateria ou por tambores de vários tipos. Do pano falar-se-á tratando do batuco. Entre os cordofones (instrumentos de cordas), quase todos introduzidos pelos portugueses, os mais usados são o violão, isto é a guitarra espanhola, a viola, uma guitarra com 10 cordas, o mandolim (ou bandolim), a rabeca, ou seja um violino com 4 cordas de origem árabe (rebec), o cavaquinho, uma guitarra de pequenas dimensões só com 4 cordas. Estão a cair em desuso o violino e a guitarra portuguesa, uma espécie de alaúde de braço comprido, típico do fado. Africanos são, ao contrário, cimbôa e berimbau. Dos aerofones o mais popular é certamente o acordeão, introduzido pelos missionários para substituir o órgão na música de igreja. Tornou-se muito rapidamente um instrumento popular, ou melhor, aquele que mais do que todos caracteriza o género funaná, particularmente na variante do instrumento chamada gaita, ou seja um acordeão diatónico de botões, muito em voga sobretudo na ilha de Santiago. Em geral, o tocador toca a melodia que acompanha com um numero muito limitado de acordes de acompanhamento (normalmente só dois). Recentemente, o acordeão vem sendo cada vez mais substituído por um teclado electrónico ou mesmo por uma guitarra. Flauta, clarinete, corneta e saxofone são muito frequentes nas formacões musicais actuais. O búzio, uma grande concha marinha utilizada também em outras partes de África, é tocado exclusivamente no género tabanka. Os géneros musicais Felizmente a música comercial ainda não conseguiu suplantar a tradicional, que continua a ser composta e executada tendo muitos adeptos. Só o zouk das Antilhas tem conseguido penetrar no panorama musical cabo-verdiano, sofrendo algumas adaptações; mas é um género sentido como afim, por ser produzido por uma população semelhante à cabo-verdiana e cantado numa língua homóloga: o crioulo francês. Agora está a ser escrito também na versão crioula portuguesa. Além desta novidade, entre os géneros tradicionais os mais difundidos actualmente são a morna e a coladera, que pertencem ao género da canção popular de tipo urbano, como o fado português, o samba brasileiro cantado (não o samba da roda do Carnaval), o tango cantado, mas - alargando o horizonte comparativo - também o rebétiko grego, a chanson parisiense e - porque não - a velha canção napolitana. Os influxos heteróclitos explicam-se também pelo facto de numerosos emigrantes, sobretudo nos EUA e na Holanda, serem músicos e portanto propensos a misturar a música cabo-verdiana com a do país que os hospeda. O nascimento da morna - o único género musical cabo-verdiano já muito conhecido também na Europa, sobretudo graças ao sucesso comercial obtido por Cesária Évora (uma Amália Rodrigues da morna) - remonta a meados do XIX século e deve ser colocado sem dúvida na ilha da Boa Vista. Ela tem antepassados musicais em comum com o fado português, sofrendo influxos tanto da modinha portuguesa como do landum (o landú ou lundú) de origem angolana, mas reintroduzido na África a partir do Brasil. De todas as formas musicais cabo-verdianas ela é a mais europeia e literariamente sofisticada: de facto aproxima-se muito do fado português por caracteres estilísticos, forma compositiva (estrofes em quadras, divididas pelo refrão, que pode também aparecer a cada duas estrofes), harmonia (simples do tipo tónica dominante + subdominante, com modulações no máximo entre tonalidade menor e maior), rítmica (binária, muito sincopada) e instrumentação (viola, rabeca, cavaquinho, guitarra). Cada verso é normalmente repetido pelo cantor, um instrumento de cordas toca a mesma melodia, enquanto os outros instrumentos acompanham. Mas existe também, como para o fado, a variante puramente instrumental; como dança já cedeu o lugar à coladera. Talvez a sua origem do fado seja contestada por orgulho nacionalista, mas fica certamente a mais sugestiva. Provavelmente a morna nasceu em ambiente burguês culto, com o acompanhamento de um piano. A coladera (ou cola) era originariamente uma dança executada com acompanhamento de canto durante as procissões por ocasião das festas religiosas (em particular a de São João), sobretudo nas ilhas de São Vicente e Santo Antão. Na sensual variante da umbigada os dançarinos davam-se golpes de barriga, donde veio o nome (umbigada de umbigo). Sucessivamente o género foi utilizado para criar uma variante menos trágica e triste do que a morna (em analogia com o que aconteceu com o fado quando se começou a compor textos de conteúdo mais leve e músicas mais rápidas e alegres). Actualmente pode ser considerada como uma variante para dança da morna, sobretudo desde que veio a ser influenciada de prevalência pela música afro-americana. Em Santo Antão sobrevive ainda o cola son jon, uma versão arcaica deste género. Todavia sobrevivem, sobretudo na ilha de Santiago (e também do Fogo), géneros nos quais a linha melódica é menos enfatizada a favor duma poderosa componente rítmica de clara matriz africana: batuco, tabanka, finaçon e funaná. Nas duas ilhas permaneceram durante séculos os escravos que tinham conseguido fugir (badius) e que portanto conservaram melhor a memória dos usos do continente africano, embora pertencendo a comunidades de origem muito diferentes. As contribuições culturais dos escravos libertados no Brasil e nos Estados Unidos e regressados aos lugares da deportação final enxertaram-se neste tronco africano comum, dando lugar a uma particular identidade musical cabo-verdiana. Nestes géneros o elemento coral fica ainda forte, as harmonias são extremamente simples e prevalece a modalidade repetitiva bem como a improvisação: de facto, normalmente, o/a cantora dirige-se ao coro que lhe responde. O batuco (ou batuque), também chamado sambuna, representa o género mais tipicamente africano (provavelmente de origem sudanesa), cantado e dançado exclusivamente por mulheres das quais uma parte fica sentada em semicírculo à volta de uma ou mais dançarinas que cantam o texto. O género é ainda popular também no Brasil (batucada), onde é ainda sentido o carácter ritual. O finaçon é um género semelhante, a tal ponto de ser muitas vezes confundido com o batuco. As mulheres sentadas batem o ritmo com as maõs sobre elementos substitutivos das percussões, em particular os panos (1) enrolados e apertados entre as coxas. A rítmica conserva traços do complexo e irregular sistema africano, cujo elemento musicológico comum de base é constituído pela assim chamada African time line (2). A dançarina-cantora inicia um baile - com amplos movimentos das ancas - e um canto lentos; sucessivamente o ritmo, a dança e o canto tornam-se cada vez mais rápidos até atingir uma espécie de clímax. Nesse momento entra em cena uma segunda dançarina-cantora e retoma-se a sucessão anterior. A origem do batuco não é certa, mas parece relacionar-se com a antiga cultura feminina africana, na qual as mulheres costumavam libertar-se da dor da viuvez, da perda dum familiar ou mesmo só da partida de uma filha dada em casamento através da catarse procurada pela experiência da dramatização da sua história individual e o conseguimento do transe por uma dança frenética, tudo isso graças ao suporte de um holding psicológico assegurado pela comunidade feminina. Pouco convencedora parece, ao contrário, a explicação segundo a qual se trataria de um antigo costume dos ricos proprietários de escravos que tencionavam assim oferecer o melhor das próprias escravas aos hóspedes de consideração. Também a tabanka (etimologicamente "festa", enquanto na Guiné-Bissau significa "aldeia") traz uma forte marca sagrada e ritual africana - ainda que misturada com elementos cristãos (culto dos santos e da cruz) e é conhecida só em Santiago, onde é executada por pequenos grupos de tocadores e cantores, acompanhados por um grupo de mulheres que tocam todo o género de percussões, entre as quais em particular chapas de material vário (mesmo de plástico), bolsas ou garrafas, mas também batendo o ritmo com as mãos nas próprias coxas. Os principais instrumentos usados são tambores de vários tipos e uma grande concha marinha utilizada como corno (búzio). Género adversado pelas autoridades coloniais, também a tabanka voltou a estar no auge depois da independência. O funaná (homólogo do funganga brasileiro e do fungaga português), de casa sobretudo em Santiago, é uma música de dança rápida, alegre e sensual, certamente influenciada pela contradança e pela valsa mas dançada como o samba arcaico, e representava no passado também a expressão mais tradicional da oposição à dominação portuguesa, pelo que era frequentemente malvista pelos colonizadores que censuravam o seu potencial eversivo. Também os rigores morais da Igreja Católica tinham no passado combatido esta música, declarando-a obscena. De facto, trata-se provavelmente duma dança ligada originariamente aos ritos da fertilidade: os corpos do par de bailarinos chegam quase a tocar-se frontalmente num ritmo desenfreado. Proveniente do interior de Santiago, onde era dançado a pés descalços e muitas vezes degenerava em rixas com faca, só foi reconhecido há algumas décadas como género nacional. Nos últimos decénios, os vários géneros estão a perder os seus caracteres distintivos, também porque compositores e intérpretes, à procura de novas soluções musicalmente mais evoluídas, tendem a contaminar a música tradicional com enxertos latino-americanos, sobretudo de cumbia, baião e maxixe, e actualmente também mesoamericanos, sobretudo de zouk, mas também africanos, em particular angolanos. Num recente passado estava ainda em voga uma certa música de dança de origem europeia. Por exemplo, gozava de uma certa popularidade a mazurca, sobretudo numa variante local muito original. Mas também eram apreciados a contradança, o galope, o scottish, o reel irlandês, a polca, o bolero, o tango, o samba e a valsa. Finalmente, a música popular portuguesa, mesmo contaminada com elementos africanos, tem influenciado alguns géneros que sobrevivem esporadicamente nalgumas ilhas, como os relacionados com os ritos agrestes (bandera, rabolo e canizade no Fogo, por exemplo). (1) O pano é uma peça de tecido de cerca de 2 metros de comprimento (em tiras de cerca de 20 cm cada uma, assembladas em sentido vertical) de origem africana ocidental, muito procurado nos séculos passados como objecto de vestuário, mas utilizado também como moeda de troca. Em Cabo Verde os escravos foram obrigados a produzir este tecido e a tingi-lo com anil e um líquen local. Os tecidos de Cabo Verde eram particularmente apreciados pela fineza dos desenhos e das cores sobretudo nos séculos XVI-XIX. Hoje são vestidos ou como xaile ou como faixa colocada debaixo da cintura. Enrolados e bem apertados servem como instrumento de percussão batido com as mãos nuas. (2) A African time line, conceito musicológico de formulação recente, é considerada como elemento base da estrutura rítmica estratificada de parte da música africana. O ritmo baseia-se em módulos rítmicos breves e cíclicos (isto é, repetidos), dos quais um ou mais fazem de unidades constitutivas de base ou de estrutura subjacente à forma musical. A presença constante das unidades de medida dá lugar a módulos standard, aos quais se sobrepõem frequentemente valores rítmicos não uniformes. Do som simultâneo de diferentes fórmulas rítmicas que se referem ao mesmo metro nasce uma música polirítmica muito diversificada. BIBLIOGRAFIA MONTEIRO, Vladimir: Les musiques du Cap Vert, Editions Chandeigne - Librairie Portugaise, Paris 1998 MARTINS, Vasco: A música tradicional cabo-verdiana - I (A morna), Instituto Cabo-verdiano do Livro, Paraia 1988 OSÓRIO, Osvaldo: Cantigas de trabalho, tradicões orais de Cabo Verde, Plátano Editora, Lisboa 1980 - Comissão Nacional para as Comemorações do 5º Aniversário da Independência de Cabo Verde, Praia 1980 LIMA, António Germano: Boavista, ilha da morna e do landú, Instituto Superior de Educação, Imprensa Nacional, Praia 2002 BRITO, Margarida: Os instrumentos musicais em Cabo Verde, Centro Cultural Português, Praia-Mindelo 1998 LOPES FILHO, João: Cabo Verde - Apontamentos etnográficos, Edição do autor, Lisboa 1976 RODRIGUES, Moacyr: Mornas e coladeras de Frank Cavaquim, Edição Câmara Municipal, Mindelo 1992 RODRIGUES, Moacyr e LOBO, Isabel: A morna na literatura tradicional caboverdiana, Instituto Cabo-verdiano do Livro, Praia 1996 SILVA, T.V. da: Finasons di nha nasia gomi - Tradisons oral di Kauberdi, Instituto Cabo-verdiano do Livro, Praia 1985 TRILLARD, Marc: A l'écoute du chant des îles de Cap Vert, Phébus 1996 BRITO SEMEDO, Manuel: A morna-balada. O legado de Renato Cardoso, col. Estudos e Ensaios, Publicom Lda, Praia 1999 AUTORI VARI: 56 mornas de Cabo Verde, Recolhas de Jótamont, Mindelo 1988 |
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